A avareza, a fé, o medo da perda, o desejo de amar e a necessidade de sobreviver se encontram em uma mesma casa, e podem render muita confusão. É a partir desse universo que a Companhia Séria de Teatro inicia sua trajetória nos palcos com uma nova montagem de “O Santo e a Porca”, clássico de Ariano Suassuna, que ganha temporada gratuita no Teatro Décio de Almeida Prado, no Centro Cultural da Diversidade, em São Paulo, a partir de 30 de agosto.

Com direção de Diego Rodda e direção musical de Marco França, o espetáculo reúne um elenco formado por Duda Paiva, Eduardo Venosa, Fernanda Bertoloni, Gabriela Minerbo, Matheus Cirillo, Paulo Roben, Thiago Salvetti e Yasmin Calbo. A montagem propõe um olhar particular para a obra de Suassuna, preservando a força de seu texto e, ao mesmo tempo, investigando novas possibilidades de corpo, ritmo, musicalidade e relação com a plateia.
Escrita em 1957, “O Santo e a Porca” acompanha Euricão Arábe, um velho avarento e devoto de Santo Antônio que guarda toda a sua fortuna dentro de uma porca. Quando recebe uma carta de Eudoro, anunciando que pretende tomar seu bem mais precioso, Euricão entra em desespero, acreditando que seu dinheiro está ameaçado.
A partir daí, segredos, disfarces, interesses amorosos, acordos improváveis e uma série de confusões movimentam a casa. A conhecida comédia de Suassuna coloca lado a lado o sagrado e o profano, a fé e a ganância, o amor e o dinheiro, revelando personagens que, por trás do humor, carregam medos e desejos profundamente humanos.
Na montagem da Companhia Séria de Teatro, a avareza de Euricão é compreendida como uma manifestação do medo. Para o diretor Diego Rodda, o personagem se agarra à porca não apenas por sua obsessão pelo dinheiro, mas por enxergar nela uma espécie de garantia de sobrevivência.
“Nosso ponto de partida foi justamente respeitar a força da escrita de Suassuna. Buscamos lançar um olhar particular sobre aquilo que já pulsa na obra. Em nossa visão, a avareza de Euricão é compreendida como expressão do medo: medo da falta, da perda, da entrega e de confiar no outro. Ele se agarra à porca como quem se agarra à própria sobrevivência. É dessa tentativa desesperada de controlar a vida que nasce o riso.”

A pesquisa da companhia parte de referências do clown, da commedia dell’arte e das danças brasileiras, além da chamada Trajetória do Herói, utilizada como elemento para orientar os percursos das personagens ao longo da narrativa. O objetivo é investigar os arquétipos presentes na obra e ampliar as possibilidades corporais e expressivas dos intérpretes.
O resultado é uma encenação que aposta no gesto, no ritmo, na postura e na relação direta com a plateia. Cada personagem ganha uma presença cênica própria, transitando entre o cômico, os tipos e a máscara, sem abandonar a dimensão humana dos conflitos.
A montagem também desenvolve uma pesquisa cênico-musical em que cada cena é pensada como uma composição, explorando pausas, ataques, silêncios, mudanças de andamento e diferentes intensidades.
“Buscamos, assim, uma teatralidade popular, viva e contemporânea, sem transformar o Nordeste de Ariano em ilustração, caricatura ou peça de museu!”, explica Diego Rodda.
A proposta da Companhia Séria de Teatro é justamente encontrar uma linguagem que dialogue com a tradição popular brasileira sem recorrer a uma representação folclórica superficial. O espetáculo marca, assim, o início de uma pesquisa artística que pretende investigar o teatro popular, os arquétipos, os tipos e o jogo entre os intérpretes.
Para Duda Paiva, integrante da companhia, a escolha de “O Santo e a Porca” para inaugurar a trajetória do grupo está diretamente ligada à possibilidade de construir uma criação coletiva.
“O Santo e a Porca representa o pontapé inicial para uma pesquisa de teatro popular, de arquétipos, tipos, de uma criação colaborativa pautada no jogo, na observação, na ‘tiração’ de sarro um com o outro. Não é à toa que o texto de Suassuna é composto de sete personagens, assim como a Companhia Séria, cada qual com seu motor que juntos alimentam esta roda que gira em uníssono. Essa caminhada tem nos ensinado a descobrir a coluna vertebral da companhia, a partir dela nascerá todo o restante.”
FICHA TÉCNICA
Texto: Ariano Suassuna
Direção: Diego Rodda
Direção Musical: Marco França
Elenco:
Duda Paiva como Caroba
Eduardo Venosa como Euricão
Fernanda Bertoloni como Benona
Gabriela Minerbo como Margarida
Matheus Cirillo como Pinhão
Paulo Roben como Eudoro
Thiago Salvetti como Santo Antônio
Yasmin Calbo como Dodó
Cenário: Companhia Séria de Teatro
Iluminação: Taiguara Chagas
Figurino: Andie A Marca
Identidade Visual: Julia Madureira
Preparação Artística: Ana Noronha, Allan Benatti e Victor Abrahão
Cenotécnico: Mateus Fiorentino
Assessoria de Imprensa: Caixa Alta
SERVIÇO: “O Santo e a Porca“
Temporada:
30/08 — 19h
05/09 — 20h
06/09 — 19h
13/09 — 19h
19/09 — 20h
20/09 — 19h
26/09 — 20h
27/09 — 19h
Local: Teatro Décio de Almeida Prado — Centro Cultural da Diversidade
Endereço: Rua Lopes Neto, 206 — São Paulo/SP
Ingressos: Gratuitos
Duração: 1h30
Classificação indicativa: 16 anos
Ingressos: Sympla — “O Santo e a Porca”